Escritura

Escritura de imóvel pode ser anulada? Nulidade, anulabilidade e prazos legais

Abrangência nacional

Por Redação Despachante Imóveis Brasília · Conferido em · 3 fontes

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Resposta rápida

  • Uma escritura pode ser nula ou anulável. Nula tem defeito grave (incapaz absoluto, objeto ilícito, forma exigida por lei não observada, simulação) e não se convalida com o tempo (Código Civil, arts. 166, 167 e 169).
  • Anulável tem defeito que só a parte prejudicada pode alegar, como erro, dolo, coação, lesão ou fraude contra credores, e produz efeitos até ser anulada por sentença (arts. 171 e 177).
  • Os prazos para pedir a anulação são de 4 anos nos vícios do art. 178, 2 anos quando a lei diz “anulável” sem prazo (art. 179) e 1 ano na partilha amigável (CPC, art. 657).
  • Anular a escritura não apaga sozinho o registro: o cancelamento na matrícula depende de sentença ou do caminho previsto na Lei 6.015/1973 (arts. 214 e 216).
  • Anulação é sempre discussão judicial. Erro de digitação na escritura é outra coisa: resolve-se por rerratificação.

Antes de tudo: é caso de anulação?

Muita gente procura “anular a escritura” quando o problema é outro. Três situações parecidas têm caminhos diferentes:

SituaçãoO que éCaminho
Nome, número ou medida digitados erradoErro materialCorreção pelo tabelião ou rerratificação: veja escritura com erro
As partes desistiram do negócio de comum acordoDistratoNovo ato entre as partes e cancelamento do registro: veja cancelamento de registro
O negócio tem um defeito que a lei considera graveNulidade ou anulabilidadeAção judicial, com advogado

Esta página trata só da terceira linha, e só dos conceitos e prazos da lei. Não substitui a análise de um advogado sobre o seu caso.

A anulação de escritura é discutida em processo judicial. Este procedimento pode exigir atuação de advogado habilitado. A atividade jurídica não integra nossos serviços e deve ser contratada separadamente.

Nulo e anulável não são a mesma coisa

Negócio nulo

O Código Civil lista os casos de nulidade (art. 166). Os que mais aparecem em imóveis:

  • negócio celebrado por pessoa absolutamente incapaz;
  • objeto ilícito, impossível ou indeterminável;
  • forma exigida por lei não observada ou solenidade essencial deixada de lado;
  • negócio feito para fraudar lei imperativa;
  • casos que a própria lei declara nulos.

A simulação também torna o negócio nulo, ressalvados os direitos de terceiros de boa-fé (art. 167).

O nulo tem três características: não pode ser confirmado pelas partes, não convalesce com o tempo (art. 169), e pode ser alegado por qualquer interessado ou pelo Ministério Público, devendo o juiz pronunciá-lo quando o conhecer (art. 168).

Negócio anulável

É anulável o negócio (art. 171):

  • por incapacidade relativa de quem o celebrou;
  • com erro, dolo, coação, estado de perigo, lesão ou fraude contra credores;
  • nos casos em que a lei diz expressamente que é anulável.

Diferenças importantes: o anulável pode ser confirmado pelas partes (art. 172) e produz efeitos até ser anulado por sentença (art. 177). Se ninguém pedir a anulação no prazo, o defeito deixa de poder ser discutido.

Os prazos da lei

PrazoHipóteseConta a partir deBase
4 anosCoaçãoO dia em que a coação cessouCC, art. 178, I
4 anosErro, dolo, fraude contra credores, estado de perigo, lesãoO dia do negócioCC, art. 178, II
4 anosAtos de incapazesO dia em que cessou a incapacidadeCC, art. 178, III
2 anosLei diz “anulável” sem fixar prazoA conclusão do atoCC, art. 179
2 anosFalta de autorização do cônjuge quando exigidaO fim da sociedade conjugalCC, art. 1.649
1 anoPartilha amigável com dolo, coação, erro essencial ou incapazVaria conforme o vícioCPC, art. 657, parágrafo único

Esses prazos são decadenciais: passado o prazo, o direito de pedir a anulação acaba.

Dois exemplos já tratados no site:

  • Venda de pai ou mãe para um filho sem o consentimento dos outros descendentes e do cônjuge: anulável em 2 anos (arts. 496 e 179). Veja venda entre pais e filhos.
  • Venda sem a autorização do cônjuge, quando a lei a exige (art. 1.647): só o cônjuge ou seus herdeiros podem pedir a anulação (art. 1.650). Veja vendedor casado ou em união estável.

Partilha julgada por sentença não se anula pelo art. 657: é rescindível, nas hipóteses do art. 658 do CPC.

O que não afirmamos aqui: se existe prazo para pedir a declaração de nulidade de efeitos patrimoniais. A lei diz que o nulo não convalesce, e a discussão sobre prescrição das pretensões ligadas a ele é de jurisprudência. O mesmo vale para a usucapião como defesa de quem está no imóvel.

O que acontece se a escritura for anulada

  • Volta ao estado anterior. As partes são restituídas à situação em que estavam antes do negócio; se isso não for possível, são indenizadas pelo equivalente (CC, art. 182).
  • O negócio pode sobreviver ao papel. A invalidade do instrumento não invalida o negócio se ele puder ser provado de outro modo (art. 183).
  • Parte válida continua válida. A invalidade parcial não prejudica a parte que puder ser separada (art. 184).

E a matrícula?

A escritura é o título; o que transfere a propriedade é o registro. Anular a escritura não apaga o registro automaticamente.

  • O registro pode ser retificado ou anulado por sentença em processo contencioso, ou por efeito do julgado na ação de anulação ou de nulidade (Lei 6.015/1973, art. 216).
  • Nulidades de pleno direito do próprio registro o invalidam independentemente de ação direta, ouvidos os atingidos (art. 214 e § 1º), mas isso não alcança o terceiro de boa-fé que já preencheu os requisitos da usucapião (§ 5º). O juiz pode determinar o bloqueio da matrícula (§§ 3º e 4º).
  • Cancelado o registro, o proprietário pode reivindicar o imóvel, independentemente da boa-fé ou do título do terceiro adquirente (CC, art. 1.247, parágrafo único).

Como o cancelamento aparece na matrícula e qual documento o cartório aceita estão em cancelamento de registro no DF.

Onde um documento ajuda

Quem vai conversar com um advogado sobre uma escritura suspeita chega mais preparado com a certidão atualizada da matrícula, que mostra a sequência de registros, e com a cópia da escritura. Com as nossas certidões imobiliárias, você recebe essas certidões obtidas, conferidas e organizadas para a consulta. A avaliação sobre nulidade, prazos e estratégia é exclusiva do advogado.

Quem pode participar deste procedimento?

Cada um atua dentro da própria competência e responde pelo que faz.

Tabelionato de notas
Qualifica os documentos e lavra a escritura. A decisão sobre o ato é do tabelião.
Cartório de Registro de Imóveis
Examina o título, faz exigências quando necessário e registra ou averba. A decisão é do registrador.
Você
Fornece documentos, assina o que for pessoal (ou por procuração) e paga as taxas públicas.

Dúvidas frequentes

Qual é o prazo para anular uma escritura de compra e venda?

Depende do motivo. Para erro, dolo, lesão, estado de perigo e fraude contra credores, são 4 anos do dia do negócio; na coação, 4 anos do dia em que ela cessar (Código Civil, art. 178). Quando a lei diz que o ato é anulável sem fixar prazo, são 2 anos da conclusão do ato (art. 179). Se o caso for de nulidade, a lei diz que o negócio nulo não convalesce com o tempo (art. 169).

Meu marido vendeu o imóvel sem a minha assinatura. Ainda dá para anular?

Quando a lei exige a autorização do cônjuge (Código Civil, art. 1.647) e ela falta, o ato é anulável, e o cônjuge pode pedir a anulação até 2 anos depois de terminada a sociedade conjugal (art. 1.649). Só o cônjuge ou seus herdeiros podem pedir (art. 1.650). A análise do caso é do advogado.

Se a escritura for anulada, o imóvel volta para o meu nome automaticamente?

Não automaticamente. O registro na matrícula continua valendo até ser cancelado ou anulado por sentença ou pelo caminho da Lei 6.015/1973 (arts. 214 e 216). A anulação faz as partes voltarem ao estado anterior ou, se isso não for possível, serem indenizadas (Código Civil, art. 182).

A escritura tem o número do lote errado. Preciso anular?

Em regra, não. Erro material se corrige pelo próprio tabelião ou por escritura de rerratificação, sem ação de anulação. Veja a página sobre escritura com erro.

E a partilha de herança feita em cartório, pode ser anulada?

A partilha amigável pode ser anulada por dolo, coação, erro essencial ou intervenção de incapaz, no prazo de 1 ano (CPC, art. 657, parágrafo único). A partilha julgada por sentença segue outro caminho, a rescisão (art. 658).

Pedido

Vai assinar a escritura? Levantamos matrícula, ônus, certidões e estado civil das partes e mostramos, antes da data marcada, o que pode atrasar a lavratura — para você chegar preparado. Contratar: Análise documental do imóvel.

Fontes

Normas e fontes oficiais consultadas para este conteúdo. Datas de conferência entre parênteses. Última revisão do texto: .

  1. Código Civil (Lei 10.406/2002), texto compilado, arts. 166 a 184, 1.247, 1.647 a 1.650 · Planalto (26/09/2026)
  2. Código de Processo Civil (Lei 13.105/2015), arts. 657 e 658 · Planalto (26/09/2026)
  3. Lei 6.015/1973 (Lei de Registros Públicos), arts. 214 e 216 · Planalto (26/09/2026)

Conteúdo informativo, escrito a partir das normas e serviços oficiais listados. Não substitui a análise do seu caso nem orientação jurídica. Encontrou algo desatualizado? Avise a gente.